terça-feira, 15 de março de 2011

Na opinião de... Orlando Soeiro

O Bezerro de Ouro, Progenitor de todas as Crises (I)
“Quem tiver ouro que o traga. Eles trouxeram-no,lancei-o ao fogo e saiu este bezerro”
Êxodo, 37, 24
Não me vou referir à nossa crónica crise económica e social, orabezerro-de-ouroagravada pela chamada crise global, dado que a complexidade de que se reveste, enredada para mais com todos os, silêncios, omissões, contradições e trapalhadas de que só gradualmente nos vamos apercebendo torna impossível ao cidadão comum tirar quaisquer conclusões fundamentadas e definitivas. Por isso, apenas procurei compilar alguns elementos de fontes fidedignas para tentar entender alguma coisa (pouca) acerca da famigerada crise Global que veio agravar a nossa já grave situação. E sobre esta, se puder, referir-me-ei oportunamente, malgrado o reduzido espaço disponível.
1 - O capitalismo é um sistema de crises:
Na encíclica Quadragesimo anno (n.º 109), de 1931, o Papa Pio XI, referindo-se à grave crise originada em 1929, nos Estados Unidos, escreveu: "...a livre concorrência matou-se a si própria; à liberdade do mercado sucedeu a hegemonia económica; à avidez do lucro seguiu-se a desenfreada ambição de predomínio; de modo que toda a economia se tornou horrivelmente dura, inexorável, cruel”, escravizando os poderes públicos aos interesses de grupo desembocando no imperialismo internacional do dinheiro.
Também em 1950, o DrJosé Sebastião da Silva Dias, numa notável comunicação para o I Congresso dos Homens Católicos da Acção Católica Portuguesa, sob o tema “Responsabilidades Sociais”, ao analisar a natureza, a evolução e a relação do capital com o trabalho, apontaria: "O desemprego maciço é um fenómeno em regime capitalista. De 1796 a 1920, os Estados Unidos tiveram 14 ciclos intermediários com a duração média de 9 anos. Neste longo período de 124 anos, a relação das épocas de prosperidade, com as de depressão foi de 1,6 para 1, o que quer dizer que 37% daqueles 124 anos foram de crise (cfr. J. A. Estey, Business Cycles, pags. 83 e 92). Foi só no século XX, quando o regime capitalista começou a dar .todos os seus frutos, que o desemprego assumiu proporções catastróficas. (...) Os desgastes económicos e psicológicos do desemprego não entram geralmente nas contas dos técnicos habituados a trabalhar com números estatísticos. É preciso ter sido desempregado para verdadeiramente sentir as misérias do desemprego.” (In: caderno “Responsabilidades Sociais" de “A PALAVRA").

Em 1991, João Paulo II, na encíclica Centesimus annus (n°42), na sequência da queda do império soviético, alertou claramente para os riscos do capitalismo financeiro: “A solução marxista faliu, mas permanecem no mundo fenómenos de marginalização e de exploração (…) e de alienação humana, (...) contra os quais se levanta com firmeza a voz da Igreja. (...) Existe até o risco de se difundir uma ideologia radical de tipo capitalista ..."
2 - O capitalismo financeiro destruiu a economia real:
Já em Fevereiro de 1998, o economista e jornalista argentino Rodrigo Andreia Rivas, escreveu, na excelente revista Além-mar um elucidativo artigo em que alertava para a inevitável crise global provocada pela deriva gananciosa do capitalismo para a pura especulação financeira, em prejuízo da economia real de produção, única que garante o crescimento económico e o emprego. Desse extenso artigo, destacamos: “Em 1996, a nível mundial, por cada 100 escudos gastos, 98$93 foram em especulação e 1$17 em fins produtivos. É este, no fim de contas, o significado da gestão liberal da crise. (...)"
3 - A nova crise global surgida em 2008:
Joseph Stiglitz, Prémio Nobel da Economia em 2001, atribuiu a principal responsabilidade desta nova crise aos banqueiros, que "não só não fizeram o seu trabalho e destruíram a nossa economia, como fizeram a campanha para atribuir a culpa a outros. Os banqueiros falharam por incompetência e por avidez (...) É verdade que os reguladores não impediram os bancos de se portarem mal. (...) e os economistas também tiveram um papel importante, ao legitimarem a ideologia da desregulamentação. {...)". Factos que nós conhecemos bem em Portugal
4 - A doutrina da Igreja face à actual crise do capitalismo:
Na sua encíclica A Caridade na Verdade, de Junho de 2009, Bento XVI sublinha, entre outros, aliás na tradição dos seus antecessores, os seguintes aspectos que têm tudo a ver com a actual crise global:
A Pessoa Humana, Primeiro capital: “Queria recordar a todos, sobretudo aos governantes que estão empenhados em dar um perfil renovado aos sistemas económicos e sociais do mundo, que o primeiro capital a preservar e valorizar é o homem, a pessoa, na, sua integridade” (n.° 25).
Desigualdades: “A dignidade da pessoa e as exigências da justiça requerem, sobretudo hoje, que as opções económicas não façam aumentar, de forma excessiva e moralmente inaceitável, as diferenças de riqueza e que se continue a perseguir como prioritário o objectivo do acesso ao trabalho para todos” (n.° 32).
Ética e economia: “a economia tem necessidade da ética para o seu correcto funcionamento; não de uma ética qualquer, mas de uma ética amiga da pessoa.” (n.º 45).
Autoridade política mundial: “Para o governo da economia mundial, para sanar as economias, atingidas pela crise de modo a prevenir o agravamento da mesma e em consequência maiores desequilíbrios, para realizar um oportuno e integral desarmamento, a segurança alimentar e a paz, para garantir a sa1vaguarda do ambiente e para regulamentar os fluxos migratórios urge a presença de uma verdadeira Autoridade política mundial" (n.° 67).
Orlando Soeiro
associado do Forum

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