terça-feira, 10 de maio de 2011

Na opinião de... A. Leite Garcia e António Manuel Soares

MAIS RESPONSABILIZAÇÃO E MELHOR JUSTIÇA SOCIAL
MAIOR SOLIDARIEDADE PARA COM OS MAIS POBRES
solidariedadeTem sido dito e repetido que Portugal vive um dos períodos mais conturbados da sua história. Nos últimos anos, as Famílias, as Empresas, o Estado viveram acima das suas possibilidades e foram-se endividando, comprometendo o futuro.
Embora com graus de responsabilidade diferentes, todos - cidadãos, políticos, empresários, sindicalistas, professores, jornalistas, fazedores de opinião, etc. – têm alguma quota de culpa na situação que hoje vivemos. Pouco importa, por isso, entrarmos em jogos de recriminação que não nos ajudem a ultrapassar esta fase difícil. Por outro lado, convém, também, não esquecer que, embora menos extremadas, sempre persistiram desigualdades profundas no tecido social coexistindo pobres e muito pobres, ricos e muito ricos, mesmo nos períodos mais prósperos do nosso país.
Quando um doente que nos é próximo é internado para se sujeitar a um tratamento hospitalar, difícil mas não mais adiável, sentimos satisfação e alívio e, apesar dos muitos desconfortos e desagradáveis sacrifícios que então procuramos minorar e partilhar, mobilizamos esforços continuados para que a saúde, o bem estar e a felicidade voltem gradualmente. De forma semelhante, agora, o mais importante é mutuar sacrifícios e esforços para reconstruir Portugal, e fazer deste país um espaço onde todos os cidadãos, sem excepções, se sintam livres e tenham acesso aos bens que necessitam para viver felizes.

Portugal, para sair da sua delicada situação financeira, vai receber uma ajuda externa da Comissão Europeia, do Banco Europeu e do Fundo Monetário Internacional, que traz exigências duras e impõe sacrifícios pesados à generalidade dos cidadãos. Para além da redução de soberania e de autonomia quanto à escolha do tipo e oportunidade de mudanças estruturais, difíceis mas necessárias, como na Justiça e na prestação transparente das contas da administração central e autárquica, também fica sob tutela, com redução da liberdade de repetir asneiras, a realização de projectos e obras sem justificação acreditada ou realizados ao abrigo de parcerias com injusta distribuição de riscos e de benefícios. Porém, nos próximos três anos, vamos conviver com reduções nos salários e pensões, aumentos de preços de bens e serviços essenciais, subida de impostos, desemprego crescente, baixas nos subsídios de desemprego e indemnizações por despedimento, entre muitas outras situações dolorosas.
Forçoso é reconhecer que estas situações vão afectar de forma diferente o conjunto da população portuguesa. Talvez muitos cidadãos, hoje já desfavorecidos ou não, sejam empurrados para níveis de pobreza insuportáveis, que constituem atentados à dignidade humana. Mesmo os cidadãos mais abastados e os que constituem as chamadas classes médias (alta e baixa) vão ser afectados e terão que alterar o estilo de vida demasiado consumista que vinham praticando.
Especialmente a este segundo grupo de cidadãos ainda se pede que sejam efectivamente solidários com os que mais necessitam e estejam disponíveis para colocar alguns dos seus recursos em instituições ou iniciativas que favorecem os mais pobres. Mais do que poupar, interessa evitar consumos menos úteis, para não dizer dispensáveis, transferindo e aplicando recursos em acções geradoras de emprego ou de ajuda aos mais vulneráveis. Retomando a analogia com a assistência a um ente querido submetido a delicado tratamento, não é só o apoio moral e material que deve ser praticado, devemos estar prontos para doar sangue para transfusões ou até órgãos para transplantes, quando tal se impuser.
Sempre mas mormente em tempo de crise, a «opção preferencial pelos pobres» trave mestra da Doutrina Social da Igreja, tem que ser assumida por todos.

António Soares / Leite Garcia

Sem comentários:

Enviar um comentário