quinta-feira, 19 de maio de 2011

[O n.º 21 de «TRANSFORMAR», de Abril/Junho de 2004, publicou um texto do Prof. Eng.º Carlos Alberto Martins Portas, no qual este se debruça sobre os problemas do campesinato, e das soluções possíveis, que podem ser encontradas.]
logo_bb“Le Boerenbond Belge”
Dimensão humana e cristã de um legado

Pelo que a seguir se lerá, cedo começaram as preocupações do Padre Abel Varzim pelos problemas sociais do sector agrícola, há algum tempo aqui abordados.
Mas o tema foi então a obra realizada na parte final da sua vida, quando se envolveu directamente na melhoria do bem-estar das gentes do campo em Barcelos. Já nessa altura os agricultores da região estavam entre os grupos sociais de menores rendimentos na recém-industrializada região que era o Entre Douro e Mboerenbondinho. O que o levou a criar uma cooperativa agrícola, tendo depois sentido as dificuldades que existiam para conduzir os lavradores do minifúndio nos caminhos de maior produtividade e mais benefícios financeiros.
Ora sucede que a sua dissertação de licenciatura em Ciências Sociais, apresentada em 1932 na “École des Sciences Politiques et Sociales” da Universidade Católica de Lovaina, é um estudo sobre a evolução positiva do mundo rural na Bélgica. O título é “Le Boerenbond Belge”, e faz um estudo histórico, económico-social e também instrumental da famosa “Liga dos Camponeses” (Boerenbond em flamengo) que teve um papel essencial na modernização da agricultura belga, não só na Flandres mas também na Valónia. O subtítulo que lhe deu, traduzo, foi “a história do reerguer (“relèvement”) e da grandeza da classe agrícola de um país”.
Na Bélgica do final do século XIX, como sucederia na segunda metade do seguinte em Portugal, as migrações internas na busca por melhores salários e regalias sociais, deixavam atrás de si os menos aptos, os mais fracos e os mais ligados à terra (que eram frequentemente os filhos mais velhos), os quais progressivamente iam sendo esquecidos e entregues à sua sorte.


O papel da “Boerenbond” foi precisamente de reorganizar esse campesinato de modo a tornar possível a melhoria das suas condições de vida. Os agricultores reorganizaram-se ao redor das suas associações de base e dos seus dirigentes, contrariando o atávico individualismo que fazia dos lavradores minifundiários, deixados a si mesmos, os parentes mais pobres das populações activas dos países que então começavam a construir a futura Europa Social.
Na dissertação publicada em Paris, pela famosa editora ”Desclée de Brouwer”, o Padre Abel Varzim começa por debruçar-se com todo o pormenor sobre a história das associações agrícolas belgas: dificuldades a vencer num campesinato descrente de si mesmo, o papel decisivo da Igreja Católica e o encorajamento das novas regras pelo Estado. Depois analisa estatutos, modelos de organização, formas de cotizações, atribuições da Direcção e estruturação por Secções de base. E dá uma atenção especial ao Secretariado-Geral e à sua relação com as organizações locais, descrevendo também o modo como se organizava aquilo que hoje se chama Formação Profissional.
Papel destacado tinha também, a Caixa Geral de Crédito (os nossos leitores saberão certamente que a maior instituição bancária de França, o “Crédit Agricole”, é de base cooperativa e nasceu de modo análogo). Havia também o Seguro Cooperativo e a Central de Compras e Vendas (para todos os sócios).
Utilíssima obra para o tempo, esta dissertação que só agora, através de mão amiga do nosso Forum, tivemos o privilégio de ler.
Quanto mais se conhece a obra do Padre Abel Varzim mais surpreendido se fica, não só com a dimensão humana e cristã do seu legado, como também com a visão progressiva que nos vários passos da sua vida manifestou. 

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