segunda-feira, 16 de maio de 2011

PROSTITUIÇÃO e TRÁFICO de SERES HUMANOS
Uma das iniciativas do padre Abel, quando prior da Freguesia de Nossa Senhora da Encarnação, ao Chiado, foi criar um centro que pudesse proporcionar a recuperação das prostituídas, que quisessem sair «da vida».
Esse Centro, a «Obra de Recuperação de Raparigas», foi dirigido por uma mulher generosa, de seu nome Maria José Lencastre.
Aqui deixamos um testemunho dela, publicado no jornal “O Comércio do Porto”, em 20 de Agosto de 1994, página 13, recolhido pela jornalista Sofia Pacheco.
O testemunho da «Mãe Zé»
Maria José Lencastre foi quem dirigiu, a partir de Julho de 1954 a «Obra de Recuperação de Raparigas»[i] de Abel Varzim. Tudo começou em Lisboa quando uma senhora de 43 anos, Maria José Lencastre, a «Mãe Zé», foi convidada para dirigir a obra.
«Eu andava muito sobrecarregada e desorientada e por isso decidi aconselhar-me com um cónego para decidir se deveria, ou não, colaborar com a Congregação 'Filles de Marie', em França. Curiosamente, esse cónego foi o padre Abel Varzim. Foi assim que o conheci», contou a «Mãe Zé» a «O Comércio do Porto».
Passou, assim, a ser a «Mãe Zé» para as raparigas que ela ajudou a «recuperar» e a sair da prostituição, sempre ao lado de Abel Varzim. Ainda hoje a cumprimentam como se tratasse de uma «mãe adoptiva».
A partir do momento que aceitou o cargo de dirigir a «Casa de Recuperação da Quinta do Bosque», na Amadora (Lisboa), a «Mãe Zé» contou-nos como as convencia a deixarem de se prostituir.
Começava por entrar em cafés, em bares, casas de prostituição, sem qualquer receio e aí conversava com elas. Como conseguia aborda-las e cativa-las?
«Com o meu jeito. Engenhava-me conforme podia».
«Entrava nas casas, dançava, levava grupos de rapazes comigo e conseguia tirá-las de lá. Depois levava-as até ao Lar das Raparigas da Quinta do Bosque, para elas conhecerem outras gentes e outros ambientes. Normalmente acabavam por ficar comigo e com todas as outras raparigas que viviam lá».

O objectivo da obra de «recuperação» era arranjar emprego para as ex-prostitutas e arranjar maneira de elas constituírem família.
«Todas elas passavam a vestir doutra maneira, iam ao cabeleireiro, recebiam aulas para aprenderem a ler e a escrever. Até umas notas de música, tocadas no piano pelas mãos de Maria José Lencastre, ajudava para elas sentirem uma mensagem e acolhimento bem diferente do que estavam habituadas. Depois, a padre Abel Varzim, sempre muito discreto com elas, falava-lhes de maneira a que a sua formação moral e religiosa fosse reeducada».
Animada com estas recordações, Maria José Lencastre falou-nos, ainda, dos bailes que organizavam para que elas - ao contrário de instituições do género «O Ninho», em França, por exemplo -, pudessem conhecer rapazes, casar e terem filhos.
«Com estes convívios que fazíamos, em casas emprestadas, elas pareciam filhas de ‘famílias finas' e foi então que aconteceu a primeiro casamento, a 7 de Fevereiro de 1955, na Igreja da Encarnação (Chiado)».
Mães solteiras ao lado dos Seus bebés
Mas, não só as prostitutas recebiam a atenção da «Obra de Recuperação de Abel Varzim». Também as mães solteiras que lá acabavam por ter os seus bebés, eram acarinhadas por Maria José Lencastre e ficavam a viver ao lado de suas mães, chegando mesmo, na idade escolar, a aprenderem a ler e a escrever para terem o seu futuro assegurado.
Uma preocupação bem patente na «Obra de Abel Varzim», fundada na Quinta do Bosque, na Amadora, com oito raparigas, em 1954. A «Mãe Zé» contou ao «CP» como tudo se passou.
«O padre Abel Varzim, que estava na paróquia da Encarnação, um dia foi chamado para fazer o enterro duma prostituta, em Julho de 1954. Fê-lo de uma forma tão solene que as raparigas que acompanhavam a enterro ficaram encantadas, e quando ele decidiu falar com elas para que saíssem do bordel, foi tudo mais fácil».[ii]
«Conseguiu trazer de lá oito, e com a ajuda do Ministério da Saúde e do Estado, acabou por arranjar a Quinta do Bosque para recuperar prostitutas».
Mas, educar, vestir, alimentar e dar formação a outras tantas raparigas que, entretanto foram sendo contactadas pela «Mãe Zé» e por Abel Varzim, entre outras colaboradoras, era preciso dinheiro... E os subsídios da assistência social não chegavam!
«Então, nós arranjávamos maneira de o ir buscar a outro lado. Tínhamos um Lar Universitário com alunas de famílias ricas que dava bastante lucro. Era da nossa família e já dava para dar algum dinheiro a Abel Varzim», explicou Maria José Lencastre.
Assim, arranjavam-se mais alguns trocados para financiar a «Obra das Raparigas». A família Lencastre cedia uma parte dos lucros do Lar Universitário que funcionava na Av. Sidónio Pais, n.º 24 em Lisboa, onde a «Mãe Zé» era professora. Dali retirava do seu ordenado o que fosse necessário para cobrir uma ou outra divida da «Obra», algumas empresas petrolíferas (Shell e Sacor[iii]) entregavam o seu donativo, sem contar com mobiliário e toda uma serie de artigos decorativos que algumas pessoas com possibilidades doavam para embelezar as casas.
Quando entrevistamos a «Mãe Zé», com 80 anos de idade, ela só recorda com carinho os dias que dedicou a «Obra de Abel Varzim», e dá-se por satisfeita por existirem raparigas «recuperadas» que ainda lhe agradecem: «Graças à senhora eu estou casada, tenho filhos e emprego»!
Maria José Lencastre contou-nos como conheceu e colaborou com o homenageado.
Fogem do Bairro Alto e instalam-se no Norte
ruaPena foi que, tudo estivesse perto do fim, já em Lisboa, pouco antes de Abel Varzim ser afastado das suas lides«pelas suas ideias políticas e sociais, demasiado avançadas para a época, pois fazia valer os direitos dos mais desprotegidos, usava uma linguagem um pouco esquerdista para aquela altura e os grandes patrões não gostavam...», recordou a «Mãe Zé».
De facto, no Bairro Alto, segundo afirmou Maria José Lencastre ao «CP», o padre Abel Varzim fazia valer os direitos dos mais desprotegidos, mas isso não bastava.
«Só via a miséria e metia-se-lhe na cabeça que havia de salvar aquela gente. Tratar só dos pobres não bastava e, a dada altura, chegou aos ouvidos do cardeal Cerejeira que o padre Abel Varzim não atendia os paroquianos como devia e ele acabou por ter que abandonar tudo e regressar à sua terra natal, no Norte do País, em Cristelo (Barcelos).»
Desde essa data, em 1957, as «casas de recuperação» foram demolidas pelo Estado. As quatro raparigas que lá viviam decidiram pedir ajuda a directora «Mãe Zé», que lhes arranjou uma moradia no Porto, na Rua D. João IV,[iv] onde actualmente funciona o Sindicato de Hotelaria.
Uma residência emprestada por um tio de Maria José Lencastre à «Obra de Recuperação de Raparigas» de Abel Varzim, dando-se, assim, continuidade a obra por ele edificada, em 1954. Deste modo, o acompanhamento era dado directamente por Maria José Lencastre e por Abel Varzim (as quintas-feiras), pois ele passou a viver no Norte e visitava a «Casa de Recuperação» do Porto todas as semanas, ate ao dia em que faleceu, a 20 de Agosto de 1964, com um enfarte.
Após a Revolução de Abril de 1974, a «Obra de Recuperação de Raparigas» do Porto ainda resistiu as «bruscas» mudanças que se fizeram sentir em Portugal, mas por pouco tempo.
A «Casa de Recuperação de Raparigas» continuou a obra de Abel Varzim, na Rua D. João IV, n.º 224/226 - Porto, até ao dia em que fechou, perto da década de 80.
112_casanossasenhora_i

[i] Secção de Recuperação de Raparigas do «Instituto de Sant’Ana»
[ii] Ver «Procissão dos Passos» - Edição Multinova/Forum Abel Varzim
[iii] Antecessora da “GALP”
[iv] «Casa de N.ª Senhora»

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