segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Wangari Maathai (1940-2011) - Prémio Nobel da Paz 2004

[A propósito da morte, ontem, da Professora Wangari Maathai, vencedora, em 2004, do Prémio Nobel da Paz, pela sua acção de promoção ambiental do seu país, o Quénia, recuperamos o texto da Doutora Maria Emanuel Almeida, Docente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, publicado na revista Transformar n.º 24 (Janeiro/Março de 2005)]

Após ter recebido o Prémio Nobel da Paz, Wangari Maathai regressou ao trabalho vestindo a sua "kanga" e com as sandálias nos pés.
Pensa-se que o Quénia é um país verde, mas o norte pertence ao deserto que abrange também parte do Sudão, Somália, Etiópia e Tchad. A sua floresta luxuriante foi dizimada, existindo apenas 2% (um quinto) dos desejáveis 10%. O que conduziu ao desaparecimento de grandes lençóis de água, à erosão do solo e à seca. É uma extensão de floresta inferior à do Uganda, Tanzânia e de alguns paí­ses europeus.
Neste contexto, é de relevar a importância que teve a atribuição do Prémio Nobel da Paz a Wangari Maathai. É a primeira mulher afri­cana a ser homenageada com este Prémio e a primeira pessoa entre o Egipto e a África do Sul a recebê-lo. É um exemplo para todos os que em África lutam pelo desen­volvimento sustentável, a demo­cracia e a paz .
Wangari Maathai em actividade
com o Movimento Cinto Verde
Segundo o Comité do Prémio No­bel esta atribuição deve-se ao em­penho que Maathai tem tido na lu­ta pelo "desenvolvimento ecológi­co sustentável, pela democracia e pela paz" , por fazer uma aproxi­mação global ao desenvolvimento sustentável abrangendo "a demo­cracia, os direitos humanos e os direitos da mulher", pois "a paz sobre a Terra depende da nossa capacidade de proteger o ambiente".
Maathai disse que não esperava o prémio e que é um reconhecimento  dado  às   mulheres  africanas "que continuam a lutar, apesar dos problemas que enfrentam" Maathai, nascida em Abril de 1940, natural de Nyeri (Quénia), tem três filhos, é actualmente [2005] deputada e vice-ministra do Meio Ambiente, Recursos Naturais e Vida Selvagem. O seu principal ob­jectivo é aumentar a área florestal para 10% em dez anos. É uma pi­oneira, desde a sua época universitária: licenciou-se em Biologia em Atchison (Kansas), continuou o seus estudos em Pittsburg, na Ale­manha e foi a primeira mulher, em toda a África Central e Oriental, com uma cátedra universitária e um doutoramento em Biologia. Fundou em 1977 o Movimento Cinto Verde (Green Belt Movement), com o objectivo de plantar árvores nas arredores de Nairóbi, onde a desflorestação para a aquisição de lenha crescia descontroladamente. Apelou aos agricultores (mulheres na sua maioria) que plantassem árvores para cessar a erosão do solo e garantir não só a sua subsistência como a do próprio meio ambiente. Com o projecto mama mici, "mãe das árvores", já plantou trinta milhões de árvores em todo o continente africano, em cerca de trinta anos, e deu trabalho a mais de 50.000 mulheres pobres. O sucesso do Movimento Cinto Verde é devido à plantação das árvores que evitam a erosão, aumen­tam a produtividade do solo, retêm a água e garantem a recolha de lenha. As mulheres, perdendo menos tempo em ir buscar água e lenha, podem realizar programas de formação sobre práticas agrícolas, processamento de alimentos, produção de mel, iniciativas cívicas, e desenvolver projectos relativos à preservação da biodiversidade, à educação ambiental e à promoção dos seus direitos. Assim, melhora a qualidade de vida, a condição económica, a participação das mulheres na sociedade e promove-se a consciência ambiental, a conservação da biodiversidade e o desenvolvimento local. Projectos semelhantes têm si­do realizados na Tanzânia e na Etiópia.
Numa entrevista, Maathai afirmou que "se alguém deseja salvar o meio ambiente, é preciso primeiro proteger o povo. Se somos incapazes de preservar a espécie humana, que vantagem há em salvaguardar as espécies vegetais?". Refere ainda que a preservação ambiental é a grande chave para a paz: "se destruímos os nossos recursos naturais haverá escassez, surgirão conflitos e até guerras". Maathai lutou contra a corrupção, pela liberdade de opinião e pelos direitos sociais e democráticos no país. Foi directora do Departamento de Anatomia Veterinária em Nairóbi (1976-1977), presidiu ao Conselho Nacional de Mulheres do Quénia de 1981 a 1987, defendeu a abolição da divida externa do Terceiro Mundo, opôs-se ao regime de Daniel Arap Mói e por is­so foi detida e presa várias vezes, durante os anos noventa. Em 1997, Maathai candidatou-se à Presidência do Quénia, mas o seu partido retirou a candidatura antes das eleições. Em 1998, opôs-se ao Governo quando este queria construir na selva, desencadeando uma revolta popular, uma repressão e uma indignação internacional. Maathai conjuga a ciência, o compromisso social, o activismo político e trabalha a nível nacional e internacional, desejando alcançar um meio ambiente melhor e um país no qual os direitos humanos sejam uma realidade para todos.


Maria Emanuel Almeida

A propósito, conselhamos:
- Notícia (áudio) da Antena 1, incluindo entrevista dada em 2006;
- Editorial (em inglês) de Richard Black, correspondente da BBC News para as questões ambientais;
- Obituário (em inglês) do jornal The Guardian, por Xan Rice, correspondente em Nairobi.

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