segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

2012 - O Ano da Fé, por Cristina Monteiro



A crise é um tsunami. Uma onda que se abate inexplicavelmente sobre pessoas indefesas, como os efeitos colaterais de uma guerra. Agora, vai ser preciso começar. De novo.

Só em Portugal, em Novembro, o número de casais desempregados cresceu ao ritmo de 17 por dia. O número de jovens impossibilitados de pensar numa vida em comum é desconhecido, mas imaginável, a par do dos portugueses adiados ou que nunca irão nascer.
Ao longo de 2011, emigraram entre cem e cento e vinte mil portugueses. Angola está de regresso aos sonhos de futuro. O Brasil, de destino de férias voltou a ser terra de oportunidades: nos primeiros seis meses do ano, 52 mil portugueses pediram vistos de residência. Voltamos a olhar além-mar… Na Europa, a Suíça é noiva escolhida.

Com a União Europeia a meia-luz, milhões de famílias entraram em queda livre sem conseguirem fazer face às necessidades mais básicas. Nesta nossa batalha diária caem desconhecidos e conhecidos. Caímos nós. Dói-nos na alma. É uma campanha ferocíssima e implacável sem um inimigo palpável. Sem um alvo a abater. São os Mercados!, as Agências de rating! que valorizam e desvalorizam Países como empresas, sem preocupação de memória e de História. Cada um de nós pode ser a próxima vítima. Vítima das vítimas.

A queda dos nossos mais próximos arrasta-nos com eles. A queda do poder de compra desmorona pequenos e grandes negócios e aumenta o desemprego, a instabilidade e a violência nas nossas ruas e nas nossas casas. Sem vendas, as empresas não pagam aos fornecedores, os fornecedores não pagam ao fisco e à segurança social e, quando se dá por isso, o negócio de anos, grande ou pequeno, é arrebatado a troco das dívidas. Com ele vai a casa da família e as outras famílias que a ele se ligavam. E esvai-se a saúde, a educação das crianças, o futuro dos jovens e dos menos jovens. Chega o desespero, a dor da injustiça. Fizemos tudo certinho, como pôde isto acontecer?


As dívidas controladas, descontrolaram-se. As habitações, que não se conseguem vender, não se conseguem pagar, e as imobiliárias expõem um novo cartaz: retoma dos Bancos. Um dia, não há muito tempo, os Bancos começaram a taxar as contas mais baixas. Agora, mendigam poupanças, cêntimo a cêntimo. Como centenas de milhares de famílias portuguesas: ontem estavam bem, hoje contam os cêntimos para alimentar os filhos e a Banca.

Venderam-nos falsas promessas. Ensinaram-nos que o Paraíso é democrático e acessível em módicas prestações. Tudo correria bem se cumpríssemos o contrato. Leia-se: se pagássemos as dívidas ao Banco. Se necessário com novas dívidas. Cá está o cartão de crédito. Sem problema. Acreditámos, porque precisamos de acreditar que os grandes são pessoas de bem. Tornámo-nos dependentes. Fomos pressionados para a compra (fácil!) de casa, de carro (topo de gama), de férias, de ninharias actualizáveis em permanência, porque os gadgets evoluem e são parte da literacia moderna, mesmo para os iliteratos tradicionais.

Tudo correria bem. Como poderia ser de outra forma? Esta, foi a terra prometida pelo Euro. O Euro que, com dez anos acabados de fazer, cresceu como uma criança idolatrada, filha de uma Europa distraída, egocêntrica e convencida. Espelho meu, espelho meu… O sol nascia noutras latitudes mas… Espelho meu, espelho meu, existe alguém mais belo do que eu?

Para esta nova doença, precisamos de novos remédios…

Portugal, desprezível e periférico na Europa, é estratégico e central para importantes países de África, América e Ásia. Com a venda de parte do capital da EDP, demos nós as boas vindas à China.

O mundo está a mudar.

Que 2012 seja um grande ano. De convalescença e renascimento.

O Papa proclamou-o Ano da Fé*.


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* A Igreja comemorará um “Ano da Fé” entre 11 de outubro de 2012 (50º aniversário da abertura do Concílio Vaticano II) e 24 de novembro de 2013 (festa de Cristo Rei).

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