quinta-feira, 25 de abril de 2013


“PACEM in TERRIS”


Comemoraram-se, no passado dia 14, cinquenta anos sobre a publicação de uma das mais notáveis encíclicas, escritas pelo saudoso Papa João XXIII. No parágrafo 128 daquele documento pode ler-se:
«Contudo, é lícito esperar que os homens, por meio de encontros e negociações, venham a conhecer melhor os laços comuns da natureza que os unem e assim possam compreender a beleza de uma das mais profundas exigências da natureza humana, a de que reine entre eles e seus respetivos povos não o temor, mas o amor, um amor que antes de tudo leve os homens a uma colaboração leal, multiforme, portadora de inúmeros bens.».
A encíclica “Pacem in Terris”- 50 anos depois
Pacem in Terris”, a última encíclica que Angelo Roncalli escreveu quando a sua doença estava chegando ao seu ponto final, representa o grito do coração do “Papa bom”.

A “Pacem in Terris” foi publicada no dia 11 de abril de 1963. Poucos meses antes, o mundo havia tido uma enorme inquietação, ante a perspetiva de um choque entre os Estados Unidos e a URSS quando navios soviéticos se dirigiam, repletos de mísseis, para Cuba. Kennedy nunca havia permitido que a costa americana estivesse ao alcance dos mísseis soviéticos, razão pela qual ameaçou intercetar o comboio. A guerra atómica parecia iminente e, certamente, João XXIII contribuiu para travar o mecanismo diabólico da crise.
É difícil entender, sem esta premissa, a importância do efeito psicológico que a “Pacem in Terris” teve em todo o mundo. O Papa dirigia-se a todos os
«…
homens de boa vontade», crentes ou não, porque a Igreja deve estar perante um mundo sem fronteiras, pois não pertence nem ao Ocidente, nem ao Oriente.
«…As nações economicamente desenvolvidas que, de qualquer modo, auxiliam as mais pobres, devem, portanto, respeitar ao máximo as características de cada povo e as suas ancestrais tradições sociais, abstendo-se cuidadosamente de qualquer pretensão de domínio…»[[i]], escreveu o papa Roncalli. É preciso procurar o que une, deixando de lado o que divide. Este tipo de textos forma um género literário que, na maioria dos casos, está destinado ao esquecimento. Sobretudo, porque muitas vezes a sua redação corresponde a necessidades ou situações contingentes. Este destino parece não atingir a “Pacem in Terris”, cuja atualidade continua vigente depois de meio século de existência.
O documento aponta quatro linhas principais para se percorrer o caminho da paz:
a cardinalidade da pessoa, inviolável em seus direitos;
a universalidade do bem comum;
o fundamento moral da política;
a força da razão e o farol da fé.
O eco da crise que acabava de se solucionar, e a dramática situação do planeta (cheio de conflitos regionais, “menores”, devido ao enfrentamento entre tendências), encontram-se desde o início do texto. João XXIII não dirigiu a encíclica aos católicos, aos crentes ou aos cristãos, mas sim a “todos os homens de boa vontade”. Ainda que depois sublinhasse que a paz é o “anseio profundo do ser humano de todos os tempos e pode ser instaurada e consolidada apenas no respeito da ordem estabelecida por Deus”.

As reações foram incrivelmente positivas.
O secretário das Nações Unidas, U-Thant, afirmou: “Li com um profundo sentido de satisfação [...] Sem dúvida, dirige-se não apenas aos membros da Igreja católica, mas a todos os homens [...] A encíclica está completamente de acordo com as conceções e os objetivos das Nações Unidas”. Posteriormente, o secretário-geral da ONU promoveu um ciclo de estudo sobre o documento. A agência soviética Tass divulgou amplamente o texto do Papa e sublinhou a parte dedicada ao desarmamento.
O Departamento de Estado dos EUA (Kennedy era o primeiro presidente católico dos Estados Unidos) comentou: “Acolhemos com afeto a mensagem comovedora do papa João XXIII. A Pacem in Terris é uma encíclica histórica, de importância mundial [...], nenhum país poderia ser mais recetivo ao seu profundo chamamento do que os Estados Unidos”. O “Washington Post” comentou: “João XXIII reuniu o voto dos povos; porque a Pacem in Terris não é apenas a voz de um velho sacerdote, nem a de uma Igreja antiga, mas a voz da consciência do mundo”. Inclusive, na anti-papista Grã-Bretanha, muitos deputados anglicanos apresentaram uma moção de elogio pelo documento de João XXIII.
abril de 2013
Adaptado de um texto publicado pelo IHU – Instituto Humanitas Unisinos, de São Leopoldo RS, Brasil, com base numa reportagem de Marco Tosatti no “Vatican Insider, 10-04-2013”, que nos ajuda a perceber a importância desta Encíclica, dirigida não só aos cristãos mas também a todos os «homens de boa vontade».



[i] III RELAÇÕES ENTRE AS COMUNIDADES POLÍTICAS – Ascensão das comunidades políticas em desenvolvimento económico

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